Algumas Reflexões

EMANCIPACÃO INDIVIDUAL E BEM ESTAR DO MUNDO 

Swami Atmashraddhananda

É uma ocasião maravilhosa poder compartilhar algumas reflexões sobre o assunto Atmanomokshartham Jagathitayacha (emancipação individual e bem-estar do mundo). Quando Swami Vivekananda fundou a Missão Ramakrishna, em 1897, ele deu a ela esse ideal. Mas esse ideal não é limitado apenas à Missão Ramakrishna ou ao que chamamos geralmente de Movimento Ramakrishna. É um ideal de grande importância para todos neste mundo, pois esse ideal representa o que um ser humano ou os seres humanos, em geral, no final das contas querem na vida.

O desejo de existir é básico ao homem


Para começar, o ser humano quer felicidade; ele quer paz e segurança na vida. Quando o ser humano começa a jornada de sua vida, ele começa em uma forma muito bruta. E, nessa forma, ele começa buscando apenas a felicidade. Isso se chama kama (desejo). Ele quer satisfazer seus desejos, pois satisfazendo seus desejos obtém felicidade. Então, ele quer satisfazer todos os seus desejos e isso é tão básico para a vida. Isso o faz pensar sobre o instinto muito básico que o faz viver. Isso representa também nosso desejo não apenas por felicidade, mas também por segurança, por estabilidade, pelo simples fato de viver. Se assim não fosse, a pessoa que não tem esse desejo estará em uma posição muito insegura. Então, kama é muito básico para o ser humano. Kama existe.


Esta é uma forma, no entanto, muito grosseira com a qual começamos nossa vida. Ao começarmos nossa vida, achamos que, para satisfazer nossos desejos, também precisamos de artha, a qual geralmente entendemos como dinheiro ou riqueza. Mas artha pode ser qualquer coisa que seja um recurso para a satisfação de nossos desejos. Então, começamos nossa jornada com a forma grosseira de satisfação dos desejos com a ajuda de nossos recursos. Os dois juntos, kama e artha, são chamados Pravritti Marga (caminho do mundo). Mas, mesmo para seguir esse caminho, há certas regras que uma pessoa deve seguir. Verdadeiramente falando, quando uma pessoa está tentando satisfazer seus desejos e tem certos recursos para satisfazê-los, dizemos que ela quer alcançar o sucesso na vida. Ela quer ter sucesso na forma de fama, poder e dinheiro e tudo o que consideramos como sucesso no mundo. Esses, juntos, tentam criar dentro da pessoa um intenso desejo de continuar sua vida.

Desejos ilimitados causam o ciclo de nascimento e morte


Chega uma hora, no entanto, que a pessoa percebe a insuficiência do caminho do desejo. É aqui que dizemos que os seres humanos cresceram, que se tornaram cultos; eles progrediram em sua vida interior. O progresso na vida interior faz com que compreendam a verdade de que uma pessoa não é apenas o corpo. Não temos apenas um Sthula Sarira (corpo grosseiro); temos também um Sukshma Sarira (corpo sutil) e, mesmo além do Sukshma Sarira, está o Karana Sarira (corpo causal) e, mesmo além do corpo causal, está o verdadeiro Eu, a Divindade presente em nós. Por que o Ser se coloca nesses diferentes “eus”, como dizemos, o Karana Sarira, o Sukshma Sarira e o Sthula Sarira? Por que o homem se coloca nesses corpos?

Diz-se, é por causa de um poder misterioso chamado maya (ilusão) ou avidya (ignorância). De alguma forma, ele cria um sentimento de limitação no Ser infinito, que é completo em si e cheio de alegria inerente. Chamamos-lhe o sentido de “ignorância” — não a ignorância no sentido real, mas uma espécie de conhecimento parcial da realidade e uma ignorância parcial da realidade. A ignorância, aqui, significa que eu conheço parcialmente minha divindade e parcialmente eu não conheço a minha divindade. Quando essa mistura acontece, então uma pessoa realiza o que chamamos de nascimento. Quando ela nasce, tem todos esses corpos ou todos esses “eus” impostos sobre ela. Assim, tem o Karana Sarira, a causa original ou o corpo causal, que dá origem ao Sukshma Sarira, o tipo de antahkarana (psique interna) ou o tipo de corpo sutil que ele usa para cumprir certos desejos e que se manifesta na forma do Sthula Sarira, ou o corpo que temos e que consiste em vários indriyas (órgãos dos sentidos) e várias faculdades de nossa personalidade.


Tudo isso começa em um passado misterioso, do qual não temos ideia. Mas é uma questão de fato que nós temos este Sthula Sarira, nascemos como bebês pequenos, nos tornamos adolescentes, crescemos como jovens e, então, temos anos de declínio. Declinamos e nosso corpo se torna mais fraco e nos tornamos velhos e deixamos esse corpo. Esse é um ciclo geral pelo qual cada ser vivo passa. Não apenas os seres humanos, mas todos os seres vivos passam por esse ciclo de nascimento e morte. Quando uma pessoa morre, não é que ela esteja realmente morta. É o corpo que morre. É seu Sthula Sarira, que consiste no que vemos uns nos outros como corpos, com certa altura, compleição particular e algumas características corporais. Assim, quando uma pessoa morre, morre a soma total de todos esses aspectos, mas não o Sukshma Sarira. O corpo sutil ainda tem desejos a satisfazer, de modo que vai em busca de outro corpo. Ele procura por outro lugar onde possa encontrar essas circunstâncias, essas condições em que possa satisfazer seus desejos, satisfazer o que sente que está faltando. E então nasce de novo e de novo. Dessa forma, continua a satisfazer seus desejos, a buscar o que considera que vale a pena alcançar na vida. E no processo, de um modo geral, acumula novos desejos. Essa é a natureza da mente. Ela continua gerando novas ideias e novos desejos. Assim, quando uma pessoa tenta satisfazer seus desejos, gera novos desejos, e esse processo continua e ela nasce de novo e de novo. Adi Sankara diz:

Punarapi Jananam Punarapi Maranam,
Punarapi Janani Jathare Sayanam,
Iha Samsare Bahu Dustare,
Kripayapare Pahi Murare.

[Ó, Senhor! Estou preso neste ciclo de nascimento e morte; de novo e outra vez, estou experimentando a agonia de permanecer no ventre da mãe. É muito difícil atravessar esse oceano de vida mundana. Por favor, conduz-me através desse oceano e concede-me a libertação.]


Punarapi Jananam – novamente você nasce, isso porque o Ser interno não morre com a morte do corpo. Com o corpo causal e o corpo sutil, ele vai em busca de felicidade externa. Ele vai em busca de felicidade de tipos diferentes, de maneiras diferentes, em lugares e situações diferentes. Está à procura de felicidade, paz, estabilidade, segurança e coisas assim. E isso é chamado de ciclo de nascimento e morte.

Dharma leva a Moksha


Então, em um dia, naquele dia abençoado, quando a alma desperta de sua ignorância, começa a pensar, “agora deixe-me encontrar algo mais, eu não sou apenas este corpo e mente, deixe-me pensar em algo maior”. É o início do dharma (retidão), o início da vida superior. O conjunto de valores começa a manifestar-se nela e, com isso, continua vivendo sua vida com virtude ainda maior. Assim, dharma cria na pessoa um outro sentimento: “que coisa boa eu posso fazer para a comunidade?”. Começa a pensar: “o que eu recebi da sociedade, das pessoas ao meu redor, deixe-me devolver. Eu não deveria ser apenas um receptor, mas também deveria ser um doador”. Na verdade, o doador é muito mais abençoado do que o receptor. Swami Vivekananda, em suas palestras sobre Karma Yoga, diz que não é o receptor que tem que dizer “Obrigado”, mas é o doador que deve dizer “Obrigado”, porque tem a oportunidade de servir. O doador percebe: “Eu poderia fazer algo por você e, ao fazer isso, eu poderia adquirir samskaras novos e mais puros, que são chamados nossos punya karmas (ações meritórias) e, por isso, estou grato por me dar a oportunidade de ganhá-los!”.


Há quatro purusharthas (objetivos da vida) para um ser humano. Os dois primeiros são kama e artha. O terceiro purushartha é dharma, que conduz a moksha (libertação), a meta final e o objetivo da vida humana. O que é essa meta de moksha? Isso significa que podemos nos libertar de nossos próprios desejos e, no processo, descobrir ou redescobrir a verdadeira fonte de felicidade, a verdadeira fonte de existência eterna, que está presente dentro de todos nós. É muito interessante lembrar que a verdadeira fonte de felicidade, a verdadeira fonte de existência eterna que procuramos através de tudo nesta vida, está realmente presente dentro de nós.


Uma pessoa que está buscando moksha é um moksharthi, e esse moksharthi está em busca dos meios que o tornarão livre de apegos. Essas amarras são, outra vez, não externas, mas internas. Dessa forma, a pessoa começa sua jornada, começa a pensar, é despertada e, assim, começa a procurar os meios adequados para superar seus apegos internos. Onde estão os apegos internos? Eles estão em algum lugar atrás de nossos olhos ou atrás de nossa pele ou atrás de alguma parte do corpo? De acordo com nossas escrituras e de acordo com os grandes sábios e místicos, esses apegos estão todos na mente. Manah eva manushyanam karanam bandhamokshayo (a mente é a causa da escravidão e da libertação do homem). Um homem é atado por sua mente e ele é libertado por sua mente. Mente significa pensamentos. “Mente” é uma palavra ocidental; todos nós dizemos minha mente é boa, minha mente está feliz, minha mente está deprimida. É o instrumento nas mãos de algo diferente da própria mente. Chamamos essa mente em sânscrito de antahkarana.

Onde ficam nossos apegos?


Antahkarana tem quatro partes. A primeira parte do antahkarana é chamada de chitta. Chitta significa memória. No momento em que vejo algo, há uma lembrança disso: “Achchha (Oh sim), eu vi isso antes ou não?”. Eu vejo um amigo ou uma pessoa. Eu o vi antes ou não? É uma maçã ou uma manga? Porque eu tenho uma memória original de algo, faço essa comparação. Assim, há uma memória mantida dentro de nós e essa memória é a soma total de todas as experiências que tivemos através de vários nascimentos, não só deste nascimento. É como a caixa preta em um avião. A aeronave tem uma caixa preta que registra tudo o que acontece na jornada. Sempre que há um acidente ou qualquer problema com uma aeronave, eles procuram a caixa preta. Algo assim é chitta nos seres humanos, mas não é grosseiro. É algo muito sutil.


No momento em que recebo alguma coisa ou encontro alguém, primeiro vejo se posso reconhecer a coisa ou a pessoa. Ele é a pessoa que eu conheço? É um novo objeto? E depois, começo a pensar nisso. Esse pensamento chama-se sankalpa-vikalpa. Por exemplo, alguém lhe diz que há um satsang (encontro). Você diz, “Oh, satsang! Satsang significa isto: devo ir lá e me sentar, haverá uma palestra agradável ou um kirtan (canções devocionais)”. Você tem uma lembrança do que é satsang. Então você decide se você deve ir ou não. Esse pensamento de ir ou não ir é chamado em sânscrito de manas. Geralmente, nós traduzimos manas como a mente, mas é a capacidade de pensar, sankalpa e vikalpa: “Oh, eu devo ir ou não, eu devo decidir ir ou não ir?”.


A terceira parte da mente é buddhi (intelecto). Buddhi significa a faculdade de tomada de decisão do antahkarana. Buddhi diz, “Sim, levante-se e vá. É correto para você”. Às vezes, podemos tomar uma decisão errada, mas buddhi é nischyatmika (decisivo). É uma determinação, é uma resolução. É por isso que todos nós rezamos: “Ó, Senhor, ilumine meu buddhi”. No Mantra Gayatri, temos essa famosa oração: Dhiyo yo na Prachodayat. “Dhi” significa buddhi, intelecto. Que meu intelecto seja despertado! Que eu seja capaz de tomar a decisão certa! Que o meu buddhi seja inspirado pelas ideias certas! Que seja inspirado a tomar o caminho certo e superior da vida! 


Esse buddhi, novamente, está submetido a outro fator, chamado ahamkara (ego). Ahamkara diz: “Sim, eu fiz isso, eu me levantei da cama, eu falei, eu ergui, eu corri, e assim por diante”. Mas buddhi, através de pensamentos e ações puros, pode tornar-se livre das garras do egoísmo e agir sabiamente. Então, você tem chitta, manas, buddhi e ahamkara. Esses são os quatro lugares—especialmente chitta—onde todos os nossos apegos interiores estão presentes. Estamos pesquisando como esses apegos podem ser rompidos, como podemos alcançar um estágio onde estejamos livres do próprio fato de nascer de novo e de novo. Pelo contrário, se tivéssemos de nascer de novo, deveríamos nascer apenas para servir e ajudar aos outros, mas não para nossas experiências pessoais de felicidade e sucesso, porque a felicidade e o sucesso que experimentamos são, afinal, limitados em seu âmbito. Mas podemos servir aos outros, podemos ser de grande ajuda para os outros, de modo que isso nos dá uma satisfação interior. Para esse propósito, uma pessoa pode nascer, mas, caso contrário, procura “mukti”, ela quer se tornar livre.

O caminho para a liberação
 

Agora, como se atinge este mukti? Em primeiro lugar, qual é o apego? Temos o tema Atmanomokshartham Jagathitayacha (emancipação individual e bem-estar do mundo). Então, o que se deve fazer pelo próprio moksha, pela própria emancipação, pela própria liberdade, digamos, pelo próprio crescimento espiritual? Em primeiro lugar, o que é espiritual e o que é o crescimento, e o que devemos fazer para o crescimento espiritual? Primeiro, deixemos bem claro que o termo “espiritual” significa o que está relacionado com o espírito infinito dentro de nós, a divindade presente em todos nós, o Atman presente em todos. Swami Vivekananda disse isso de uma forma muito linda. Ele disse: “Cada alma é potencialmente divina. O objetivo é manifestar essa divindade controlando a natureza externa e interna”. Isso é toda a religião. Controlar nossa própria natureza interior significa que nossa mente tem que ser trazida sob treinamento apropriado e controle apropriado. Só então podemos alcançar nossa liberdade interior. Esse controle, essa disciplina interior, é chamado de espiritualidade. 


Esta disciplina interior é frequentemente auxiliada por condições e fatores externos. Por exemplo, todos vocês estão sentados aqui; é um lugar bonito, onde não há nenhuma perturbação a respeito do que você está se propondo fazer aqui. Você está aqui, desejando ouvir e enriquecer a si mesmo. Assim, estas são condições externas e estas condições externas são necessárias por um tempo muito longo para nosso crescimento interior. Precisamos nos tornar estáveis o suficiente para buscar nosso crescimento interior. Assim, as condições externas são muito necessárias nesse sentido. Desempenham um papel vital no crescimento da espiritualidade. E o teste de crescimento espiritual é o altruísmo. Quanto mais uma pessoa cresce espiritualmente, menos egoísta ela se torna. O altruísmo é o teste do crescimento espiritual. Quando falamos de crescimento espiritual, não é que apenas o lado místico da espiritualidade deva ser enfatizado; o lado do dia-a-dia da personalidade também deve ser muito enfatizado. No que diz respeito ao lado místico, uma pessoa pode dizer: “Bem, eu ouvi o som divino, eu tive uma visão divina”. Esse é seu lado místico. É muito pessoal, é muito privado. Você não pode investigá-lo por qualquer meio exceto sua manifestação na vida diária. O que é essa manifestação na vida diária? Uma pessoa espiritual se tornará menos egoísta, seu foco na pequena personalidade vai mudar, ela se tornará cada vez mais identificada com os outros, porque o verdadeiro Eu dentro de nós não é múltiplo, é único. A consciência que está presente em todos nós, a divindade que está presente em todos nós, não é múltipla; é apenas uma. O que é o Eu em mim também é o Eu nos outros. Assim, naturalmente, quando uma pessoa cresce espiritualmente, ela se torna menos e menos egoísta, e preocupada com o bem-estar dos demais. Esse crescimento espiritual de uma pessoa a leva a moksha, o objetivo final da vida humana. Mas como o homem busca moksha? Tal processo e método de busca é chamado de yoga


Yoga: O Caminho de Moksha


Então o que é yoga? Yoga não deve ser confundida com formas externas como yogasanas (posturas), pranayama (controle respiratório) e kriyas (ações devocionais). Estas são necessárias, é claro. Elas têm um papel preparatório em nossas vidas. Suponhamos que uma pessoa tenha o seu corpo sempre doente; definitivamente ela se beneficiará ao seguir o caminho dos yogasanas. Digamos, ela acorda cedo, pratica certos asanas. Porém, ao mesmo tempo, ela deve seguir o que chamamos regrar outros aspectos da vida. Yuktaharaviharasya Yuktaswapnavabodhasya, diz a Gita. Yukta ahara e vihara e yukta swapna avabodha significa que deve haver moderação na comida, no sono, nas atividades e mesmo no relaxamento. Somente então a pessoa pode se beneficiar de quaisquer yogasanas praticados. Mas yoga não se limita a apenas isso. Yoga vai muito além. Está relacionada com as quatro faculdades do ser humano. Todos nascemos com quatro faculdades. Quais são elas? Primeiramente, nós temos a faculdade do intelecto – de análise, de pensar. A parte ou forma de yoga na qual esta faculdade é mais usada é chamada de Jnana Yoga (o caminho da sabedoria).   
 

O Caminho da Jnana Yoga


Na Jnana Yoga, nós utilizamos a ajuda da faculdade de pensar dada por Deus e a purificamos. Por favor, lembrem-se de que não é uma questão de ler livros, embora a leitura seja maravilhosa; não é uma questão de ouvir mais palestras, embora isso ajude; não é assistir mais vídeos no YouTube, os quais, claro, se vistos com critério, dão uma boa perspectiva; mas não é tudo sobre o modo como a nossa faculdade de pensar pode ser empregada. Na verdade, significa autoanálise. Também significa aprender a fazê-la. Em yoga, fazemos autoanálise. Quem sou eu? Eu sou meu corpo? Eu sou apenas as várias partes do meu corpo? Eu sou meus olhos? Eu sou meus ouvidos? Eu sou minhas pernas? Eu sou só o corpo? Ou eu sou também meus pensamentos? Um yogi que pratica a Jnana Yoga essencialmente está em busca da liberdade final através do caminho da faculdade do raciocínio e autoanálise. Jnana Yoga é um dos caminhos para moksha ou liberação – liberação das nossas próprias correntes internas, as quais criamos através dos nossos gostos e aversões.    


O Caminho da Raja Yoga


Agora vem o segundo caminho – o caminho da concentração. Nós o chamamos de Raja Yoga ou Dhyana Yoga. É como o rei ou raja, porque se você toma conta da concentração, você cuida de tudo o mais. Concentração é requerida para tudo, não apenas para os estudos; é exigida para a realização até mesmo das nossas atividades diárias. Suponhamos que um homem seja um excelente jogador de críquete. Uma das razões para a sua excelência é a sua tremenda concentração. Ele desenvolveu seu poder de concentração. Ele tem outras coisas como energia, ele trabalhou arduamente, conhece certas técnicas e foi agraciado com o corpo e a mente apropriados, mas acima de tudo, ele possui concentração. Igualmente, concentração é um bem para um artista, um cozinheiro, um motorista, um militar, até mesmo para as pessoas que estão fazendo coisas más. Mas esta concentração necessita ser purificada novamente e retomar a direção correta. Este é o caminho chamado de Raja Yoga.   


Raja Yoga consiste de oito partes ou oito passos. É chamada de Ashtanga Yoga. Os dois primeiros passos de Ashtanga Yoga são frequentemente negligenciados por muitas pessoas. Elas pensam que podem praticar meditação diretamente e acreditam que fechar os olhos e sentar-se numa postura em particular, como padmasana ou sukhasana, é Raja Yoga. Elas omitem os dois primeiros passos cruciais, os yamas e niyamas, que o grande professor de yoga, o Sábio Patanjali, nos deu há 2000 anos. O que são yamas e niyamas? Yama significa controle e niyama, regras. Yama consiste de cinco controles, a saber, ahimsa, sathya, asteya, brahmacharya, aparigraha (não violência, verdade, não roubar, celibato, ausência de possessividade). Similarmente, há cinco niyamas: shouch, santosh, tapa, swadhyaya e Iswara pranidhana (pureza, contentamento, penitência, autoconhecimento e entrega a Deus). O sábio Patanjali instrui muito claramente que, sem seguir yamas e niyamas, outros passos de Raja Yoga ou Dhyana Yoga não são possíveis. Patanjali diz que estes são os mahavratas, os grandes votos. Então, o primeiro passo é yama, o segundo é niyama, e depois está asana, a postura correta na qual a pessoa se senta confortavelmente. O quarto passo é pranayama ou controle do prana (força vital) através da respiração. O controle da respiração não é pranayama; controlar prana através da respiração é pranayama. A foça vital deve ser controlada e treinada para que não corra arbitrariamente em diferentes direções, mas torne-se calma, porque este prana está muito conectado com a mente. Logo, se a mente deve ser apaziguada, então o prana também deve ser apaziguado.  


Depois de yama, niyama, asana e pranayama vem pratyahara (retirada da mente). Vamos supor que você é um professor, tem uma classe e há alunos que estão do lado de fora. Você os chama para dentro. “Venham, vamos ter uma aula”. Leva algum tempo para que todos entrem. No caso da nossa mente, nossos pensamentos estão todos dispersos, temos que trazê-los para dentro. Eles estão ocupados com diferentes memórias do passado ou pensamentos sobre o futuro. Talvez estejamos pensando sobre filmes que assistimos ou livros que lemos ou experiências no nível físico; comida, roupas, viagem, interações com pessoas. Tudo isso está lá e estamos pensando sobre o passado. E não apenas isso, estamos também pensando sobre se tais experiências foram prazerosas ou não. Em geral, pensamos mais sobre as experiências que causaram desprazer, as experiências amargas. Então você diz: “eu ouvi isso, alguém falou daquela maneira, ele me humilhou ou fui premiado”. Todas estas coisas pertencem ao passado. Você também pensa sobre o futuro. Em pratyahara tentamos trazer a mente para o presente.  
 E depois de pratyahara vem dharana. Dharana significa tentar fixar a mente em um objeto interno. Na Raja Yoga, tentamos fixar a mente num objeto interno, o que significa que nós visualizamos um objeto. Pode ser um símbolo sonoro. Um símbolo sonoro é o Om. Ou meditamos numa forma. Ou seja, alguns meditam em Ganesha, outros em Durga ou Krishna ou Rama. A pessoa visualiza uma forma em particular em sua mente e tenta meditar nela. Quando é bem sucedida nesta completa visualização, esta se torna dhyana, e dhyana se torna samadhi. É claro que existem muitos tipos diferentes de samadhis, os quais significam níveis de concentração. O simples significado de samadhi é concentração, embora os níveis de concentração sejam diferentes. Assim, este é o segundo caminho para a consciência de nossa liberdade interior – a Raja Yoga.

 
O Caminho da Karma Yoga


O terceiro caminho é o do karma (ação). Você tem que realizar diferentes ações no mundo. Mas como você realiza tais ações? Primeiramente, o que é karma? Qualquer ação é karma. Sim, de algum modo, toda ação é karma. Mas de uma maneira mais estrita e mais de acordo com as escrituras, se você quer entender o termo karma, significa que junto à ação existe um senso de agente. O que é o agente? Significa eu estou fazendo isto. Em sânscrito é chamado kritratya abhimana (orgulho do fazedor). Abhimana (orgulho) que eu estou fazendo isto. Junto a kritratya abhimana vem bhogtritya abhimana. O que é bhogtritya abhimana? Significa: eu estou desfrutando disto. Eu estou desfrutando da comida, eu estou tendo prazer com isto, eu estou desfrutando ou experienciando isto. É comum a todos os seres humanos. Mas um karma yogi tenta purificar este senso de agente, esta vontade, o poder desta vontade pelo desapego. Ele tenta oferecer todas as suas ações a Deus. Ele tenta oferecer tudo o que vem pensando, planejando, e tudo o que vem experimentando através dos vários sentidos a algum poder superior e se sentir desapegado. O desapego pode ser praticado de duas maneiras. Eu penso que eu sou a alma ou Atman e não estou conectado com as coisas. Eu sou apenas como um vigia. O vigia está somente olhando, as pessoas estão indo e vindo, e ele somente observa. Este tipo de atitude de uma testemunha, no entanto, é bastante desafiador. O modo mais fácil é eu entregar todos os meus pensamentos como uma oferenda ao Senhor e me sentir separado deles. Eu ofereço ao Senhor o que veio Dele. Eu recebi certas faculdades; através destas faculdades, eu realizei algum karma, e aquele karma eu ofereço ao Senhor, e no processo, tento tornar-me livre. O objetivo essencial da Karma Yoga, assim como o objetivo de todas as outras yogas, é tornar a mente pura. Pureza da mente é a meta de todas estas formas de yoga que estamos discutindo. 


Primeiro, discutimos sobre a Jnana Yoga, depois Dhyana Yoga e agora resumidamente eu estou falando sobre a Karma Yoga. Karma Yoga é um processo pelo qual nós nos purificamos ao realizar nossos deveres de maneira correta. A Bhagavad Gita diz: Niyatam Kuru Karma Tyam (você realiza as ações que deve realizar). Realizamos nossos deveres sem procurar qualquer recompensa egoísta, e no processo purificamos nossa mente e nos tornamos desapegados dos objetos que nos escravizam internamente para que o Ser verdadeiro se manifeste para nós. Este é o terceiro caminho – o caminho do karma ou ações sem apego. 


O Caminho da Bhakti Yoga


Então há um quarto caminho – a Bhakti Yoga. Todo ser humano tem certas emoções. É tão comum, é natural que todos tenhamos emoções. Bhakti está relacionada ao processo de redirecionar estas emoções dos canais humanos, onde ficamos apegados ou desenvolvemos ódio ou ciúmes, para a Eterna Realidade ou Divindade inerente em nós. Quando mudamos a direção das nossas emoções dos objetos externos para a Divindade interna presente em nós, isto é o que chamamos Bhakti Yoga.  Podemos não entender o sentido de bhakti (devoção). Pode parecer muito abstrato para nós ou a ideia mesma de Divindade parecer muito abstrata. Neste caso, tentamos atribuir uma forma; tomamos a imagem de um deus ou santo ou um profeta e o adoramos como objetos de nossa própria Divindade. Objetos da nossa própria Divindade são adorados através da Bhakti Yoga. E a Bhakti Yoga tem todos aqueles vários traços que experienciamos no amor humano. Existe o preparatório ou gouni bhakti e existe a devoção madura ou para bhakti. Na para bhakti, a pessoa não tem que seguir nenhum ritual externo. A gouri bhakti (o primeiro passo na para bhakti) começa com certas vidhi e nishedha (permissões e proibições). Você tem que fazer isso e não deve fazer aquilo. Você vai ao templo, você se levanta pela manhã, faz japa (repetição do Nome de Deus), segue isto, aquilo, e não segue certas coisas. Não vá a tal lugar e não converse sobre tais coisas. Isto significa que há vidhi e nishedha. Então, quando a pessoa alcança pureza mental ao seguir os preceitos por longo tempo, ela desenvolve para bhakti.


Todos os Caminhos da Yoga Levam ao Mesmo Objetivo


Assim, nós temos estes quatro caminhos para Atmanomokshartham (alcançar a liberação). Liberdade é o objetivo de todas as yogas. Depois temos jagathitaya (bem-estar do mundo). O bem-estar do mundo está separado da libertação do indivíduo?? De acordo com os sábios, jagathitaya não está separada do nosso sadhana (disciplina espiritual). Na verdade, é uma parte de Atmanomokshartham. Quer dizer, você passa cada dia realizando as práticas espirituais e também tenta fazer o bem aos outros, servir as pessoas, tenta ajudar os outros da maneira que pode. Pode ser na forma de dinheiro ou de alguma habilidade ou através do respeito demonstrado. Seja o que for que possui, qualquer recurso disponível, toda pessoa neste mundo pode servir; não é necessário apenas dinheiro para servir os demais. Mesmo quando alguém escreve um endereço de forma tão clara que o outro não tem problemas em ler, é também uma forma de seva. Portanto, o serviço começa por realizar cada pequeno ato tendo em mente as outras pessoas. 


Então, você tem um significado mais amplo de jagathita quando fala em fazer o bem aos pobres, às pessoas que sofrem e necessitam de ajuda. Na verdade, o correto seria combinar ambas e não ir para os extremos. Suponha que uma pessoa siga o caminho de bhakti na forma de puja ou rituais realizados no templo. Ela não deve ir para os extremos. Ao mesmo tempo, ela deve ter alguma atividade para o benefício dos outros. Igualmente, ela deve seguir a cultura moral fundamental ou valores morais conforme discutimos na Raja Yoga, quais sejam yama e niyama, as regras da ética. É o melhor a ser seguido. Não é uma questão de que yoga seria boa para mim, porque todas as quatro faculdades estão presentes em você. Então, deixe que elas sejam combinadas entre si. Vamos fazer uma combinação das quarto yogas. Logo, devemos tentar seguir Bhakti e Karma, assim como Jnana e Dhyana. É lógico que certas faculdades serão mais fortes e automaticamente você se sentirá mais atraído por um caminho em particular na sua vida. Mas isto não significa que os outros caminhos não devem ser seguidos. O melhor a fazer é tentar desenvolver todos ao mesmo tempo.


Finalmente, vamos lembrar que todas estas yogas podem ser praticadas simultaneamente. Todas estas quatro yogas podem ser trazidas para a nossa vida diária, e elas precisam ser trazidas porque nós temos certo desenvolvimento cultural, educacional quando a alma começa a buscar a liberação. Mas tudo isso só é possível se tivermos o elemento básico que se encontra disponível para todos, que é shraddha. A pessoa tem que ter shraddha. Como diz Swami Vivekananda, essa palavra não pode ser traduzida totalmente, embora a palavra mais próxima seja fé. O significado mais aproximado é fé ou convicção, mas shraddha inclui muitas outras coisas. Inclui bravura, pensamento positivo, também inclui o sentimento essencial de bondade para com todos e também um sentido de respeito. Portanto, shraddha é um dos pré-requisitos básicos para seguir tanto o caminho de jagathitava como o de Atmanomokshartham.

 
– Palestra realizada em 10 de junho de 2018 em Prasanthi Nilayam por Swami Atmashraddhananda, Missão Ramakrishna, Belur Math, Kolkata. 

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