Especial

AS NAÇÕES UNIDAS ADOTAM EDUCAÇÃO EM VALORES HUMANOS PARA DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

Kalyan Ray

Vivemos em um mundo no qual os desejos sem limite da humanidade, auxiliados e aperfeiçoados pelo rápido progresso na ciência e tecnologia, dominam nosso estilo de vida e exploram a Natureza em níveis não apenas insustentáveis, mas ameaçadores à própria sobrevivência de nosso planeta natal. Gandhi nos advertiu tempos atrás, dizendo: “O mundo contém o suficiente para atender às necessidades de todos, mas não o bastante para satisfazer a cobiça de todos”. Precisa-se de uma profunda mudança no modo como vemos a nós mesmos, nosso relacionamento com outros seres humanos e com o mundo em que vivemos. Os educadores não podem mais se contentar em transmitir aos estudantes conhecimentos e habilidades adaptados à conquista de um meio de vida e à construção de uma nova economia baseada em avanços tecnológicos. Melhor seria se estivessem igualmente interessados na transformação das mentes e corações dos estudantes, durante sua formação, para que um dia possam construir uma nova sociedade capaz de promover harmonia e paz mundial.


Mais de cinquenta anos atrás, Sri Sathya Sai Baba já enfatizava a necessidade crítica de reformas na educação, quando dizia: “A educação precisa dotar o homem de compaixão e espírito de serviço – inteligente, adequado e pleno. Educação não deve apenas informar, mas transformar – transformar hábitos, caráter e aspirações do indivíduo, conduzindo enfim à transformação do espírito”. Com essas palavras Ele estava construindo as fundações de um novo sistema educativo que ajudaria os estudantes a reconhecer seu pleno potencial humano e despertaria neles uma consciência capaz de levá-los além das preocupações com o bem-estar pessoal, até a busca do bem-estar de todos os membros da sociedade. 


Educare Introduz Valores Humanos na Educação


A Educação deve instilar valores humanos fundamentais. Deve promover um comportamento ético. Precisa cultivar o autocontrole. Esta é a função essencial da Educação.

– Sri Sathya Sai Baba 


O marco filosófico da nova abordagem educativa de Sri Sathya Sai Baba, que Ele viria a chamar de “Educare” é o despertar dos valores humanos inerentes do Amor, Verdade, Paz, Conduta Correta e Não violência, que jazem adormecidos em cada ser humano. Através do florescimento dos valores humanos e a sua tradução em ações diárias, Educare ajuda a integrar os níveis físico, intelectual, emocional e ético do indivíduo, como um ser humano completo. Este ser humano pleno seria uma combinação de nobreza e capacidade – dotado de um intelecto aguçado, capaz de discernir entre “bem” e “mal”, um coração gentil e compassivo, amoroso com todos, e mãos competentes, ansiosas por servir à sociedade. Esta combinação de nobreza e capacidade constitui o caráter. Sri Sathya Sai Baba sempre enfatizou que “O caráter é o distintivo da verdadeira educação”.


Para que isto ocorra, para a purificação da personalidade de alguém em um caráter nobre, a educação secular ou material deve mesclar-se com a educação espiritual. “Tanto uma quanto a outra são essenciais”, disse Sathya Sai Baba. “A educação secular faria florescer o conhecimento latente relativo ao mundo físico e a educação espiritual faria florescer a divindade inerente ao indivíduo”. Só esta abordagem educacional integrada pode preparar as crianças para os desafios da vida de maneira balanceada – temporal, moral e espiritual.


Um quarto de século depois, a Comissão para Educação no Século 21 da UNESCO, popularmente conhecida como Comissão Jacques Delors (1996), reafirmaria esta abordagem “Educare” ao dizer que: “A Educação deveria contribuir para o completo desenvolvimento de cada pessoa – mente, corpo, inteligência, sensibilidade, apreciação estética e espiritualidade”. A Comissão também viu esta nova abordagem educacional como “um dos principais meios disponíveis para promover uma forma mais profunda e harmoniosa de desenvolvimento humano, resultando na redução da pobreza, exclusão, ignorância, opressão e guerra”.


Em setembro de 2000, os líderes mundiais se reuniram em um Encontro do Milênio especial nas Nações Unidas para debater sobre a pobreza extrema no século 21. As Metas de Desenvolvimento do Milênio adotadas no Encontro pretendiam retirar mais de 500 milhões de pessoas da extrema pobreza, que lhes nega saúde, dignidade e aspirações de realizar seu potencial humano. Os principais especialistas do mundo reunidos sob as Nações Unidas, na forma de uma Força de Trabalho do Milênio, tinham um desafio formidável de encontrar meios e caminhos para atingir as metas ambiciosas estabelecidas pelos líderes mundiais no Encontro do Milênio.


Na sua introdução, o relatório da Força de Trabalho do Milênio (2003) destacou a importância dos valores humanos para alcançar suas metas. O relatório disse: “As Metas de Desenvolvimento do Milênio são construídas em torno de uma compreensão compartilhada daquilo que nós, como seres humanos, devemos uns aos outros, compreendendo os princípios de equidade, justiça e obrigações do indivíduo na busca pelo bem mútuo que caracteriza os sistemas religiosos e éticos pelo mundo afora”. Também foi destacado que os seres humanos podem ser motivados à ação tanto pelos valores quanto pelos impulsos econômicos e medidas regulatórias. Valores humanos inerentes a todo ser humano – Verdade, Conduta Correta, Paz, Amor e Não violência – podem ajudar a inspirar ações na busca das Metas de Desenvolvimento do Milênio.

As Nações Unidas Adotam Valores Humanos na Educação para a Água, na África


Há dois tipos de aprendizado no sistema educacional moderno... O primeiro diz respeito ao que é físico e o segundo, ao que é espiritual... Por exemplo, você sabe que a água é composta de duas partes de hidrogênio e uma de oxigênio. Portanto, conhece a composição da água. Isto amplia seu conhecimento científico. Mas o que é relevante do ponto de vista social e espiritual é como garantir uma distribuição equitativa de água para todas as pessoas.

– Sri Sathya Sai Baba

Kofi Annan, Secretário Geral das Nações Unidas, sendo informado sobre o Programa de Educação para a Água baseado em Valores Humanos.

As Nações Unidas buscavam um modo prático de traduzir valores humanos em seus múltiplos esforços desenvolvimentistas. A Educação para a Água foi considerada um ponto de ação estratégico para alcançar a maioria das Metas de Desenvolvimento do Milênio, na área da saúde, educação, mortalidade infantil, empoderamento das mulheres ou na sustentabilidade ambiental. A oportunidade surgiu em 2001, quando um grupo de 38 especialistas internacionais convocado pelas Nações Unidas, sob a direção do Ministro da Educação da África do Sul e a orientação do Instituto Sathya Sai Africano de Educação, recomendou por unanimidade, em um corajoso movimento, a adoção da educação baseada em valores para abordar o problema da água.


Educação para a Água baseada em Valores Humanos seria uma abordagem inovadora que não somente transmitiria informações sobre a água, mas também inspiraria e motivaria os jovens aprendizes a transformar seu comportamento, passando a usar a água de forma sábia e sustentável. Ao evocar qualidades humanas desejáveis, a abordagem baseada em valores poderia ajudar a promover escolhas desejáveis de uso e manejo da água. Ao nutrir valores tais como honestidade, integridade, tolerância, responsabilidade, compartilhamento e cuidado nas crianças, durante os anos de sua formação, as prepararia para se tornar cidadãos cuidadosos e responsáveis na sociedade.


As Nações Unidas começaram a implementar esta iniciativa inovadora em 2001, em sete países africanos, logo chegando a nove: Costa do Marfim, Burkina Faso, Etiópia, Gana, Quênia, Mali, Níger, Senegal e Zâmbia. As Nações Unidas deram a responsabilidade da implementação deste programa ao Instituto Sathya Sai de Educação da África. Em cada país, os currículos escolares nacionais dos níveis primário e secundário foram revisados a fim de se introduzir educação para a água baseada em valores humanos, em várias disciplinas acadêmicas. Em seguida, seriam desenvolvidos materiais didáticos e pedagógicos (ex.: planos de aula baseados em valores humanos) e os multiplicadores seriam treinados nos institutos nacionais de desenvolvimento dos currículos. A Educação para a Água foi, então, implantada como piloto em escolas selecionadas de cada país, usando métodos diretos e indiretos. O método direto usa as cinco técnicas de ensino: sentar-se em silêncio, oração, contação de histórias, cantos grupais e atividades grupais. No método indireto, professores treinados integram valores humanos em todos os assuntos acadêmicos dos níveis primário e secundário.


Nos anos seguintes, observou-se que os educadores africanos – professores, especialistas em currículos, inspetores escolares e administradores –, nos nove países participantes, abraçaram com entusiasmo a educação em valores humanos através do programa das Nações Unidas. Até 2012, o Instituto Sathya Sai de Educação da África já havia treinado 1734 professores e 249 instrutores seniores, através de 40 oficinas regionais e nacionais, nos países participantes. Aproximadamente 78 mil estudantes de 91 escolas públicas, em 9 países africanos participaram do programa, que alcançou sucesso em implementar a educação para a água baseada em valores humanos no currículo nacional de dois países africanos.


De fato, o avaliador acredita que o Programa de Educação para a Água baseado em Valores Humanos é necessário porque derrubou o comportamento tradicional e a erosão dos valores em grande parte da África e devido à seriedade da crise do abastecimento de água. Também não é verdade que os valores humanos sejam estranhos à maioria dos países africanos, como muitos disseram. Na verdade, eles são inerentes à tradição africana. E quando confrontados com sua existência, a maioria dos participantes rapidamente concorda que sua adoção é uma condição necessária para o retorno a um comportamento responsável por parte de todos os membros da sociedade.

– Extrato do Relatório de Avaliação Intermediário escrito pelo Professor Norman Clarke, Avaliador Independente das Nações Unidas, em setembro de 2004.

Kofi Annan e outros líderes de Agências da ONU com crianças da Escola Sri Sathya Sai em Nairobi, Quênia.

A Educação para a Água baseada em Valores Humanos se estende à Ásia


O sucesso do programa na África despertou interesse na educação para a água baseada em valores humanos em outras regiões. Em dezembro de 2003, as Nações Unidas e o Banco de Desenvolvimento da Ásia se associaram para organizar, em cooperação com os Institutos de Educação Sathya Sai das Filipinas e da Tailândia, um Encontro Consultivo da Região Asiática do Pacífico, sobre Educação para a Água baseada em Valores Humanos, em Manila, nas Filipinas. Dentre os participantes, havia educadores sêniores de 21 países asiáticos, inclusive Austrália, República Popular da China, Índia, Indonésia, Japão, República Popular Democrática do Laos, Malásia, Nepal, Paquistão, Filipinas, Singapura, Sri Lanka, Tailândia e Vietnam.


Em março de 2004, o Conselho de Ministros da Organização do Sudeste Asiático para Educação (SEAMEO) adotou uma declaração sobre Educação para a Água baseada em Valores Humanos, em apoio a uma iniciativa colaborativa das Nações Unidas, Banco de Desenvolvimento da Ásia e países da região. Logo depois, o programa de EVH teve início em sete países asiáticos: Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Filipinas, Tailândia e Vietnam. Até 2012, o programa asiático havia treinado 507 instrutores especializados em 19 Faculdades de Educação.

Funcionários das Nações Unidas e membros do Instituto Sri Sathya Sai de Educação em uma oficina na Tailândia.

Avaliação Final das Nações Unidas


O Relatório Final de Avaliação das Nações Unidas (2013), preparado por uma equipe internacional de especialistas liderados pelo Professor Norman Clarke, observou com admiração o sucesso da abordagem de EVH nos países participantes, destacando que o programa teve “impacto considerável nas escolas, faculdades de educação e comunidades... com significativa melhora no comportamento e no aprendizado das crianças”. Os avaliadores estavam otimistas com a perenização dos resultados, realizações e benefícios deste programa de uma década, já que a abordagem de EVH havia sido bem ancorada nas instituições de formação de professores, nos países participantes.


Finalmente, a equipe avaliadora encorajou as Nações Unidas a “difundir seu Programa de Valores Humanos de forma mais abrangente, não apenas em termos do sucesso passado, mas também como fonte potencial para o futuro desenvolvimento internacional”.


 “A educação baseada em valores pode ser um agente importante para mudanças de atitude e comportamento nos principais atores da cena urbana, particularmente na solução de problemas que afetam a vida diária em nossas cidades”.

– Anna Kajumulo Tibaijuka, Subsecretária Geral, Nações Unidas


Como a Educação para a Água baseada em Valores Humanos se tornou proeminente em países africanos e asiáticos, educadores de diversos países, inclusive Ministros de Educação, visitaram Prasanthi Nilayam para conhecer mais sobre a abordagem de Valores Humanos, na forma que é praticada nas instituições educacionais estabelecidas na Índia por Sri Sathya Sai Baba.

Dra. Anna Kajumulo Tibaijuka, Subsecretária Geral, Nações Unidas, durante uma visita a Prasanthi Nilayam em 2006.

Um Farol de Esperança em um Mundo Desesperado


Na virada do novo Milênio, quando o mundo vem sendo derrotado pelos novos desafios do crescimento das desigualdades e declínio de recursos, e os educadores em toda parte vêm buscando um novo paradigma educacional, Sri Sathya Sai Baba, o Mestre Universal, tem oferecido uma nova e mais elevada orientação à educação, capaz de desenvolver a mente e o espírito da geração atual a um nível mais elevado de consciência que transcenda os estreitos interesses pessoais e a autopromoção.


A Educação baseada em Valores Humanos desenvolveu-se ao longo de décadas sob a orientação direta de Bhagavan Baba e tornou-se um farol de esperança em um mundo desesperado. A adoção da Educação em Valores Humanos pelas Nações Unidas e seu reconhecimento pelos especialistas em educação de nível mundial, sob o patrocínio deste organismo mundial, envia um chamado ao despertar dos pensadores educacionais e políticos responsáveis do mundo todo.


– O autor, Sri Kalyan Ray, participou das Nações Unidas e serviu na Força de Trabalho do Milênio. Também atuou como Presidente do Comitê para Educação da Fundação Mundial Sri Sathya Sai e como Membro do Conselho de Prasanthi, da Organização Internacional Sathya Sai.


"Ciência e tecnologia se desenvolveram aos saltos ao longo dos últimos 200 anos e, ainda assim, nenhuma santidade foi acrescentada a elas. Isto tem estimulado o desenvolvimento da civilização humana, mas não do íntimo do homem. A ausência de valores humanos levará ao declínio da espiritualidade. Desenvolvam uma fé forte de que o corpo lhes foi dado para cultivar valores humanos."

– Baba

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