Especial

FAÇA SEU DEVER

Kamala Pandya

 

A Bhagavad Gita enfatiza a importância do dever através das palavras imortais do Senhor Krishna para Arjuna. Ela diz, “Seu direito é apenas trabalhar; nunca anseie pelos frutos do trabalho. Não permita que o fruto da ação seja seu objetivo, nem permita que seu apego seja pel a inação”. Novamente, o Senhor Krishna exorta, “Ó, Arjuna, execute seus deveres mantendo-se em yoga, abandonando o apego, e indiferente ao sucesso e fracasso; a equanimidade é chamada yoga”. (Cap. II) 

O dever é um aspecto essencial do caráter
Cada um de nós tem um dever a realizar dependendo da nossa idade e posição na vida. É aquilo que devemos a cada pessoa que encontramos na vida. É uma obrigação, uma dívida, que podemos cumprir apenas pelo esforço voluntário e pela ação firme nas questões de nossas vidas.

Temos que executar o dever bem desde a infância. Da mesma maneira que a caridade, que começa em casa, o dever também começa somente em casa, onde os pais possuem dever em relação a seus filhos e os filhos têm um dever em relação a seus pais. Igualmente, existem os respectivos deveres dos irmãos, professores e alunos, esposos, mestres e servos. Portanto, o dever cobre toda nossa vida, desde o momento em que entramos nela até nosso último suspiro – dever em relação aos superiores, subordinados, pares e finalmente em relação a Deus.

O senso do dever é a parte principal do caráter. Sem ele, o indivíduo cambaleia e cai diante do primeiro sopro da adversidade ou tentação; e, quando inspirado por ele, o mais fraco se torna forte e corajoso.

“O dever é o cimento que une o tecido moral inteiro, sem o qual todo poder, bondade, intelecto, verdade, felicidade, o próprio amor não consegue ter nenhuma permanência. E todo o tecido da existência se desintegra sob nossos pés e finalmente nos deixa sentados em meio às ruínas, aturdidos com nossa própria desolação.”


O sapateiro que costura sapatos está desempenhando uma ocupação tão dignamente quanto o Primeiro Ministro que governa o país. Por isso, cada um tem que fazer seu dever apropriadamente. Não há alto nem baixo neste sentido. Para cada pessoa, sua ocupação é uma questão de orgulho. Portanto, devemos cumprir sinceramente nosso dever. Devemos fazer nosso trabalho bem, sem qualquer interrupção ou falha. Quando todo mundo fizer seu dever com este espírito, o bem estar do mundo inteiro estará automaticamente garantido.


A Consciência é a Força-Guia do Dever
O dever se baseia no senso de justiça – justiça inspirada pelo amor, que é a forma mais perfeita do bem.  O dever não é um sentimento, mas um princípio que permeia nossas vidas e se revela em nossa conduta e em nossos atos, que são determinados principalmente por nossa consciência e pela força de vontade.

 

Nossa consciência desempenha um grande papel no cumprimento de nossos deveres. Ao fazer nossos deveres, a consciência regula e influencia nossas ações, sem o que iríamos, possivelmente, nos extraviar. A consciência é o governo moral do coração – o governo da ação correta, do pensamento correto, da fé correta, da vida correta e, somente através de sua influência dominadora é que nosso caráter pode ser plenamente desenvolvido.


A consciência nos guia para fazermos a ação correta ou o dever correto. Se alguém deixa de cumprir com seu dever, sua consciência permanecerá alfinetando-o e o sentimento de culpa permanecerá para sempre. Para orientar-se pela ação correta e seguir o caminho certo do dever, também é preciso força de vontade. A vontade é livre para escolher entre o caminho certo e o caminho errado.


Se o senso de dever é forte e o caminho da ação ou do dever é claro, a coragem, sustentada pela consciência, possibilitará que a pessoa cumpra bravamente seu objetivo frente a qualquer oposição e dificuldade. No caso de fracassar no seu propósito ela terá, ao menos, a satisfação de saber que foi pela causa do dever.
 

Os homens de princípio amiúde sacrificam tudo que estimam e amam para não fracassarem em seu dever. São Paulo, inspirado por seu dever e fé, declarou-se não apenas “pronto para ser aprisionado, mas para morrer em Jerusalém”.  Robertson of Brighton disse, com sinceridade, “Que ninguém busque sua própria glória – mas que todo homem cumpra com seu próprio dever”.
 

A força motivadora principal de George Washington era o espírito do dever. O dever era o elemento régio e orientador de seu caráter.  Quando via claramente seu dever diante de si, cumpria-o a despeito de quaisquer riscos, com integridade inflexível. Ele não o fazia por glória ou fama ou por recompensas, mas para fazer a coisa certa e do melhor modo possível.
O lema de Wellington, como o de Washington, era o dever, e ninguém era mais leal ao dever que ele. Ele parece ter dito em certa ocasião: “Há pouco ou nada nesta vida pelo que vale a pena viver; mas podemos, todos nós, seguir em frente e cumprir nosso dever”. Este ideal do dever parecia ser o princípio que governava o caráter de Wellington.


Da mesma forma, há muitos exemplos em nossos épicos e Puranas em que homens e mulheres seguiram a senda do dever e ficaram famosos por isto. Shravan Kumar, Pundarika, Prahlada são exemplos brilhantes de pessoas que cumpriram com sinceridade seu dever.  Quando Lakshmana pediu a Rama que não fosse para o exílio por ordem de seu pai Dasaratha, Rama respondeu que era Seu dever obedecer a seu pai e satisfazer seu desejo.


Assim, devemos nos desincumbir de nossos deveres sem desejar o fruto da ação, como afirma a Gita. Bhagavan Baba diz: “Esforço pleno é vitória total”. Devemos empenhar nosso melhor em quaisquer que sejam as atividades que empreendamos, sem a preocupação com os frutos de nossas ações. De maneira especial, os estudantes devem fazer todos os esforços em suas provas para ir bem e deixar os resultados virem. Qualquer que seja o trabalho que façamos, mesmo se fracassarmos, devemos ter o consolo de que fizemos nosso dever e nos esforçamos ao máximo.


Nenhum Dever é Superior ou Inferior
Qualquer que seja a profissão, intelectual ou serviçal, o dever permanece acima de tudo. Conta uma história que uma vez um monge meditava sob uma árvore por longo tempo. Um dia, os pássaros acima da árvore perturbavam-no fazendo caírem folhas sobre sua cabeça. O monge ficou zangado e olhou para cima. Ao olhar para cima um jato de fogo irrompe de seus olhos – e queima o pássaro, reduzindo-o a cinzas. Ele fica arrebatado por ter desenvolvido poderes ióguicos e por poder, de súbito, queimar e reduzir um pássaro a cinzas. Ele então vai para a cidade pedir esmolas. Chega numa casa e chama “Bhiksham Dehi, Maa”. Mas, a mulher lhe diz para esperar. O monge fica ofendido e pensa como ela ousa lhe pedir para esperar, ‘Não conhece ela meus poderes ióguicos?’ Enquanto ele pensava assim, a voz de dentro da casa vem outra vez: “Rapaz, não pense que você é muito mais do que é. Aqui não há pássaros para você queimar”. O monge fica surpreso e quando a mulher vem atendê-lo ele cai a seus pés e lhe pergunta como ela sabia daquilo.


A mulher responde que não conhecia yoga ou sadhana e que era apenas uma mulher comum que fazia seu dever de cuidar de seu marido doente, pelo que ela havia pedido para ele esperar. Ao interrogar a mulher para que lhe revele o segredo de seus poderes, ela o manda falar com o açougueiro. Quando ele foi ao açougueiro, este pergunta ao monge se foi uma tal mulher que o enviou. O monge fica espantado: como ele podia saber daquilo?


O açougueiro, depois de terminar seu trabalho, leva-o à sua casa. O monge, então, o vê fazer seus deveres relacionados com seus pais, após o que o açougueiro lhe pergunta o que podia fazer por ele. O monge, a seguir, aprende do açougueiro a mais alta metafísica, uma preleção de um livro muito celebrado na Índia chamado “Vyadha Gita”. 


Ele disse ao monge: “Nenhum dever é feio ou impuro. Sou desapegado e procuro fazer bem o meu trabalho – como chefe de família. Nem sei yoga nem me tornei um renunciante. Nunca saí pelo mundo nem por nenhuma floresta. Mas, tudo isto me veio enquanto eu fazia meu dever”.


Como tal, o Dever é um “D” importante em meio aos 5 D’s do Dever, Devoção, Disciplina, Discernimento e Determinação para o progresso na senda espiritual , de acordo com os ensinamentos de Bhagavan Sri Sathya Sai Baba. Ele vem em primeiro lugar em nossas vidas independente de quais sejam as circunstâncias ou o nascimento. Como Gandhiji disse: “O esforço infinito para ser o melhor é o dever do homem; é sua própria recompensa; tudo o mais está nas mãos de Deus”.


- A autora é Coordenadora Nacional de Bal Vikas Sri Sathya Sai, na Índia.

© © 2016-2019 Organização Internacional Sathya Sai do Brasil. Todos os direitos reservados.